100 ANOS DA MORTE DE DELMIRO GOUVEIA. Um dos mais importantes nordestinos da historia do Brasil. Um texto de Vandeck Santiago – Diario de Pernambuco

As inovações de Delmiro Gouveia para o Nordeste morreram com ele, na tocaia.  “E o que se vê, em 1917, naquele tenebroso 10 de outubro”, diz o historiador pernambucano Frederico Pernambucano de Mello, que cunhou a melhor definição sobre o assassinato dele, “é nada menos que a morte do futuro pelas piores energias do passado”.

Um texto de Vandeck Santiago – Diario de Pernambuco,

DELMIROHoje (10 de outubro de 2017, em matéria publicada no Diario de Pernambuco, pelo jornalista Wandeck Santiago) faz cem anos da morte de um nordestino que sonhou com um Nordeste industrializado e desenvolvido.

Na luta para concretizar o seu sonho, enfrentou oligarquias estaduais, brigou com empresa estrangeira, agrediu a golpes de bengala o político mais poderoso de Pernambuco na época (Rosa e Silva, em 1899), desafiou coronéis da região e abriu uma fábrica no Sertão alagoano que transformava camponeses e ex-flagelados da seca em operários, e os tratava como cidadãos.

Não podia acabar bem. Por volta das 21h de 10 de outubro de 1917, quando lia jornais na varanda de casa, foi morto a tiros de rifles, disparados por pistoleiros. Nunca se descobriu o mandante, ou mandantes, do crime.

Delmiro Gouveia — este era o seu nome — morreu cedo (tinha apenas 54 anos), mas deixou em torno de si uma série de imagens míticas, como a de pioneiro do desenvolvimento do Nordeste, de mártir da luta contra o imperialismo e de pobretão (órfão de pai e mãe, ex-vendedor de passagens em trem) que fizera fortuna graças ao próprio esforço.

Nasceu em 1863, em Ipu, interior do Ceará. Perdeu o pai aos 5 anos. Sua mãe migrou para Pernambuco, trabalhou como empregada doméstica e morreu pouco tempo depois. Ele tinha 15 anos.

Nenhum lugar do mundo é bom para um órfão de pai e mãe, nessa idade — muito menos o Recife da segunda metade do século 19. Mas Delmiro Gouveia contrariou o destino esperado para alguém na situação dele. A história registra um dos seus empregos — o de cobrador de trem. Mais tarde, a origem humilde seria alvo de zombaria dos seus adversários ricos.

Nas suas viagens ao interior, teve o seu faro empreendedor despertado para produtos típicos da região, peles e couros de bode, cabra, carneiro.

Tornou-se comerciante desses produtos, e conseguiu chamar a atenção de uma firma americana, com quem fez sociedade, passando a exportar os couros dos bichos para Europa e Estados Unidos, onde eram itens cobiçados.

Saía de cena o órfão pobre de Jó, e entrava “o empresário jovem, elegante e charmoso que despontava no mundo dos negócios”, segundo expressão da professora da USP Telma de Barros Correia, autora de uma das muitas obras que narram a vida de Delmiro (Pedra: plano e cotidiano operário no Sertão, lançado em 1998, pela Editora Papirus).

Em 1899, aos 36 anos, ele inaugura o Mercado do Derby — se o leitor, ao ler este nome, imaginou (com todo respeito) carnes, moscas, frutas e caldo de cana espalhado por todo o recinto, permita-me dizer que está completamente enganado.

O de Delmiro reunia um centro de comércio, hotel, velódromo e parque de diversões. Sim, nele se comercializava alimentos, mas também itens sofisticados, tecidos, calçados, louças, jornais, livros. Sua concepção o aproximava “do conceito do shopping center atual”, e quem diz isso não é um pernambucano bairrista, e sim a professora da USP, Telma Correia.

Há também outro testemunho insuspeito de bairrismo — o da escritora americana Marie Robinson Wright, que o descreveu no livro The New Brazil (1890): “(…) Um dos melhores hotéis da América do Sul, o Hotel do [Mercado] do Derby é um dos maiores estabelecimentos do seu tipo, no Brasil, e está equipado para os amplos negócios que diariamente são nele realizados”.

Nos conflitos entre Delmiro e governantes locais, o Mercado acabou pagando o pato: foi incendiado pela polícia, em 1890.

Três anos depois, Delmiro mudou-se para Alagoas. Comprou uma fazenda no Sertão alagoano, no povoado de Pedra (atual município de Delmiro Gouveia, a 300 km de Maceió).

Lá  idealiza a construção de uma fábrica de linhas de costura — não havia nenhuma no Brasil. Para isso precisava antes de energia elétrica. Em 1913 ele implanta uma usina hidrelétrica próxima à Cachoeira de Paulo Afonso (BA) — e daí sai a energia para a fábrica em Pedra.

No auge do funcionamento, a fábrica tinha 2.000 funcionários, submetidos a jornada de 8 horas de trabalho e com creches para os filhos.

O empreendimento tinha outra experiência inovadora: uma vila operária, formada de casas de alvenaria. A comunidade vivia sob rígidos códigos de higiene (as ruas e as casas tinham de estar sempre limpas; era proibido cuspir na rua) e conduta (quem “mexesse” com as mulheres operárias, era “punido” com o casamento obrigatório).

Cuidava-se também do lazer dos trabalhadores: havia sessões de cinema, bailes, pista de patinação, campo de futebol e parque de diversões.

As inovações de Delmiro Gouveia para o Nordeste morreram com ele, na tocaia.  “E o que se vê, em 1917, naquele tenebroso 10 de outubro”, diz o historiador pernambucano Frederico Pernambucano de Mello, que cunhou a melhor definição sobre o assassinato dele, “é nada menos que a morte do futuro pelas piores energias do passado”.