“A intolerância que assusta o País e ofusca no debate eleitoral” – Texto de Ulysses Gadêlha publicado no Jornal Folha de Pernambuco

A incidência de casos de agressões físicas, nos últimos dias, em decorrência da polarização política, acendeu um sinal de alerta sobre o nível crítico que vem ganhando a disputa de segundo turno entre Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT). Nas últimas duas semanas, o País tem registrado dezenas de episódios de violência cometidas em nome da intolerância política.

Situação que leva autoridades, como o presidente da OAB-PE, Ronnie Duarte, a fazer um apelo. “A gente está vendo uma escalada não só no discurso de ódio. Estamos atingindo um outro patamar, com agressões físicas. Se os candidatos não se esforçarem para distensionar e trazer a discussão para um debate da serenidade e da moderação, eles também sofrerão as consequências disso. Ano que vem, alguém vai ter que governar este país, no grau de intolerância e fúria que as pessoas se apresentam”, diz Ronnie.

Na última quinta-feira, diante da profusão de casos, finalmente o poder público sinalizou que pretende começar a coibir essas agressões: a procuradora-geral eleitoral e da República, Raquel Dodge, editou instrução aos procuradores regionais eleitorais das 27 Unidades da Federação. A instrução busca combater situações de ódio e violência que se espalham pelo Brasil .

Um levantamento inédito feito pela Agência de Jornalismo Investigativo Publica, em parceria com a Open Knowledge Brasil, mostra o tamanho desse acirramento: nos últimos 20 dias, em 18 estados e no DF, foram contabilizados 70 ataques contra a integridade física de pessoas, apenas por ódio eleitoral. Desse total, 50 deles foram responsabilidade de militantes de Bolsonaro; seis foram praticados por apoiadores petistas e 15 não têm causas definidas.

Três deles aconteceram no Recife, na última semana. Os alvos preferenciais desse embate têm sido mulheres, jornalistas e LGBTQI+. As agressões foram deflagradas pelo simples fato da vítima usar símbolos que os identificavam com algum candidato, ou com a campanha #EleNão. Uma forma extrema de pressionar o adversário a não expor sua opção política.

Fratura

A força com que a violência se aproxima das pessoas no trabalho, nos grupos de WhatsApp da família e dos amigos, e agora, também, nas ruas, aponta para uma fratura que transcende o processo eleitoral em curso, marcado pelo ódio e pelo medo. Diante da incomunicabilidade entre bolsonaristas e petistas, resta aos candidatos a responsabilidade de reconciliar a população em torno dos problemas do País, sabendo que “ninguém briga violentamente sem deixar sequelas”, segundo afirma a cientista política Priscila Lapa.

Casos
Delegada aposentada e fundadora do projeto Guerreiras do Calendário (que combate o câncer de mama), Verônica Azevedo percebe as marcas que a intolerância imprime. E conta que vem tendo dificuldades com a irmã devido ao posicionamento político. “Vi casos expressos de parentes, irmãs fazendo questão de dizer que as divergências são meramente eleitorais, mas dava para entrever o veneno se esgueirando nos diálogos. Adoro minha irmã e a maior dor é a surpresa de pessoas generosas apoiarem um fascista“, conta. “Não tenho nem meia dúzia de motivos para votar no candidato que irei votar (Haddad), mas é imperioso afirmar que tenho mais de uma centena de motivos para não votar no Bolsonaro“, admite.

Incômodo semelhante atinge o estudante universitário Luan Amaral, que chegou a cogitar mudar o sobrenome pelo nível de discordância que estabeleceu com seus familiares. Devido à sua opção contra Bolsonaro, o estudante relata que recebeu ataques de primos no perfil do Facebook. “Disseram que eu era injusto, hipócrita, falso moralista, foi gratuito e pessoal o ataque. Eles me atacaram de forma covarde e eu me mantive em silêncio todo o tempo”, lamentou.

O professor do departamento de Filosofia da UFPE, Rodrigo Jungmann, eleitor de Jair Bolsonaro, também foi alvo de hostilidade na última terça, quando promoveu a exibição do filme “Bonifácio, O Fundador do Brasil”, no Centro de Filosofia e Ciências Humanas, no Recife. O docente relatou o mal-entendido de estudantes da universidade, apoiadores de Haddad, que achavam que a exibição do longa tinha caráter de promoção da candidatura bolsonarista.

Há vídeos circulando no Facebook onde Jungmann aparece gravando uma multidão de jovens o insultando de “fascista”, algo recorrente em sua atividade acadêmica, marcada por um perfil conservador. “Pessoalmente, deploro qualquer excesso, venha de onde vier. Agora, no tocante ao meu metier, ao que eu conheço e vivo, que é o ambiente acadêmico, posso afirmar que as agressões são quase que exclusivamente da esquerda”, diz.

Freios

O filósofo espanhol Manuel Castells, em seu livro “Ruptura (A Crise da Democracia Liberal)”, insere o Brasil numa rota de países acometidos por um colapso gradual do modelo político de representação. Castells argumenta que há um conflito de interesses entre governantes e governados, onde a globalização aparece como fator opressivo. E como agravante, a crise econômica – engatilhada em 2008 e potencializada, no Brasil, a partir de 2013 – cumpre um papel de polarizar ainda mais a população em razão do sofrimento empreendido na superação das perdas financeiras, com o desemprego, o endividamento, a perda de poder de compra e de direitos trabalhistas.

A arena política, por sua vez, reflete as mudanças que se empreendem no contexto socioeconômico. O cientista político Marcos Nobre, professor da Unicamp, qualifica o atual pleito como “a eleição da vingança“, levando em conta o retrospecto desde 2014, quando se instalou uma polarização – já bastante retesada nas redes e nas ruas – entre Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB). Quando o senador tucano resolveu não aceitar o resultado das urnas, “com ações na Justiça e a convocação de manifestações de rua”, e no contexto da Operação Lava Jato, que passou a motoniveladora no sistema político, Bolsonaro entrou em campanha.

“Até 2014, PSDB e PT tinham conseguido conter os ódios respectivos dentro dos limites institucionais”, explica. A questão é que, após esse gesto de renegar o produto da eleição, “o ódio antipetista ficou solto na rua, pronto para ser canalizado não só fora das instituições, mas, sobretudo, contra elas”, considera o analista. O “nós contra eles” de 2014 é completamente diferente do atual, porque “Bolsonaro convenceu que tem as credenciais para ser o exterminador do PT e do sistema político, que, para seu eleitorado, nenhum outro partido representa tão bem como o PT”, argumenta.

Os petistas, por sua vez, levaram parte do eleitorado ao outro lado da polarização, numa candidatura antissistema. “A ideia desse discurso é mais ou menos a seguinte: se o PT é igual a todos os outros, se é farinha do mesmo saco, por que apenas Lula está preso e por que apenas Dilma Rousseff foi apeada do poder?”, resume Nobre.

Para o professor de Ciência Política da Unicamp Oswaldo do Amaral, a maior vantagem da democracia e das eleições é “evitar que a gente se mate”. “As eleições têm freios, e esses freios foram afrouxados”, explica Amaral. “É como num jogo. Se você não acredita mais que as regras são cumpridas, seu incentivo para descumprir aumenta”, pondera.

O pesquisador Alberto Carlos Almeida aponta Bolsonaro como um dos principais responsáveis pela eclosão da violência. “Ele está incentivando a violência quando faz o gesto de armas, quando, no Acre disse que vai metralhar os petralhas. E isso atrapalha a militância de Haddad, porque as pessoas se inibem de demonstrar seu pensamento, de se expor”, aponta.

Solução
Diante dos agressões físicas e da guerra nas redes, especialistas cobram das autoridades e dos candidatos a adoção de providências contra a violência. “O Judiciário e o Ministério Público estão sendo displicentes em relação ao discurso e aos atos da extrema direita. São severos em relação aos movimentos sociais, mas deixam a extrema-direita pregar a volta da ditadura”, diz o sociólogo Rudá Ricci. “O Estado brasileiro não está cumprindo a sua função constitucional de defesa da ordem democrática”, aponta, citando o caso da jovem marcada a canivete com uma suástica nazista, no Rio Grande do Sul.

Já o cientista político Marcos Nobre pondera que a eleição não vai resolver a fratura exposta do País. “Para o eleitorado que não aderiu à lógica da vingança, a questão central tem a ver com o futuro, com as consequências, com tudo aquilo que não conta na lógica da vingança”, avalia. “Talvez possa ser formulada assim: qual o caminho menos pior para tentar recompor aquele conjunto básico de regras que permite o convívio das diferenças sem violência e que costuma receber o nome de democracia?”, indaga.