UM ANO SEM BELCHIOR. Ele faleceu subitamente no dia 29 de abril de 2017, numa cidade do interior do Rio Grande do Sul, onde estava morando.

bel 3Morre Belchior aos 70 anos e com ele um enigma que ninguém conseguiu decifrar, esse expoente da música popular brasileira por suas letras contestatórias, melancólicas e irônicas.

(Esse texto que reproduzimos agora, um ano depois, foi publicado aqui no Blog AcervodoCastanha, no dia 30 de abril de 2017)

belchiorO compositor, autor de sucessos como Medo de avião, Velha roupa colorida e Apenas um rapaz latino-americano teve o auge da carreira nos anos 70, com discos próprios e gravações de intérpretes como Elis Regina, que transformou Como nosso pais, composta pelo cearense, em hino de uma época. Em 1976 gravaria o disco Alucinação,que o consolidaria no cenário musical nacional.

Cearense de Sobral, nascido em 26 de outubro de 1946, Antônio Carlos Belchior completou 70 anos no em outubro do ano passado, como um dos enigmas indecifráveis da música popular do Brasil.

Se houve festa, ninguém soube onde. Sem paradeiro certo, Belchior estava sumido há oito anos, mais precisamente desde 2008.

De artista recluso, o cantor e compositor passou a viver como foragido desde que a Justiça começou a cobrar dívidas deste senhor latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e sem shows.

Com o LP “Alucinação”,  em 1974, o álbum, inventaria perdas e danos da geração que tentou mudar o mundo na década de 1960. Belchior alfinetava a turma anterior, lembrando que o que há algum tempo era novo, jovem, já podia ser antigo naquele ano de 1976.

Decorridos 43 anos da edição original, Alucinação hoje pode soar como álbum datado, até antigo, mas jamais velho porque, descontadas as referências da época, os embates entre gerações continuam girando em torno das mesmas questões universais expostas com contundência por Belchior em letras que iam direto ao ponto, sem firulas e metáforas.

Outros álbuns importantes do cantor, Todo sujo de batom (1974), Coração selvagem (1977), Melodrama (1987) e Elogio da loucura (1988) marcaram a história musical brasileira dos últimos 50 anos.

Belchior  continuou a se afirmar com o som da década de 1980, o que para muitos críticos da época, soava como o cantor compositor e intérprete “fora de moda”, diante do surgimento de diversas bandas do pop rock brasileiro e pelos pagodeiros dos quintais cariocas que conquistaram fama ao longo daquela década.

Belchior passou incólume. Suas musicas nunca foram esquecidas e os seus fãs munca o abandonaram apesar daquela efervecencia musical dos anos 80.

Naquela década, Belchior já era outro e precisava rejuvenescer, mas, para os críticos, não o fez. A música brasileira também já era outra. Para nós, seus fãs, ele nunca precisou rejuvenescer. Na década de 1980 voltou a dar o tom em Elogio da loucura, outro disco fora de moda já na época do lançamento.

Belchior foi um desses ícones. Empurrado para a margem do mercado fonográfico a partir da década de 1990, Belchior nunca mais gravou um disco com a repercussão, mesmo modesta, obtida por Melodrama e Elogio da loucura na mídia.

O cantor e compositor passou a viver do passado de glória, fazendo shows com os sucessos que lhe garantiriam o sustento e um público fiel. Até que, por volta de 2007, a cabeça de Belchior começou a sair dos trilhos existenciais e a agenda de shows começou a ficar progressivamente vazia. A reclusão se tornou fuga que, com o passar do tempo, adquiriu caráter lendário.

Aos 70 anos de vida, Antônio Carlos Belchior se transformou no enigma que ninguém consegue decifrar.

SUMIÇO

Belchior enfrentou turbulências nos últimos anos, recluso e fora do palcos.

Em 2009, ganhou as manchetes depois que sua ex-mulher contratou um advogado para cobrar supostas dívidas e pensão devidas pelo cantor.

“Para a família, Belchior está sumido desde 2007”, calculava o advogado da ex-mulher de Belchior Leonardo Scatolini na TV, naquele ano.

Mesmo cultuado, Belchior recusou os convites para voltar aos palcos. Um empresário lhe ofereceu DOIS MILHÕES DE REAIS e pagaria todas as suas contas, dividas e débitos para ele voltar a se apresentar em shows pelo País e América do Sul.

Incógnito, ele recusou a oferta.

Nos últimos anos, se popularizaram no Ceará e em outras partes os dizeres “Volta, Belchior” em muros. No Carnaval deste ano, ele foi homenageado em blocos em São Paulo e em Fortaleza.